Nº 1347 - 20/03/06 - Ano XXVII

MASCULINO OU FEMININO?
Presença feminina mostra que
ciência não tem gênero

Ima Vieira e Núbia Maciel: mulheres que se destacam no campo da ciência regional e nacional

 

 





Quem é mais bem-sucedido no campo da ciência? O homem ou a mulher? O reitor da Universidade de Harvard, Lawrence Summers, aposta todas as fichas no sexo masculino. Numa conferência polêmica, em janeiro deste ano, ele afirmou que as diferenças biológicas garantem o sucesso dos homens no mundo das ciências, principalmente das exatas.

Dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), porém, não sustentam a idéia. Pelo contrário. A cada dia, a participação feminina no campo da ciência tem sido maior. Entre os pesquisadores com idade de até 24 anos, há 57,5% de mulheres contra 42,5% de homens. Os dados do CNPq mostram, ainda, que, no ano 2000, as mulheres representaram 44% dos pesquisadores nacionais. Em cinco anos, a taxa de participação feminina no setor cresceu cinco pontos percentuais.

Nas universidades elas também estão se tornando maioria. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep – MEC) mostra que, num total de 2.694. 245 pessoas matriculadas em cursos de graduação presenciais, 1.515. 352 são mulheres. Há 336.459 homens a menos fazendo curso superior no Brasil. E as mulheres já representam 52% da população com diploma universitário.

Entre tantos números, Ima Vieira é um nome de destaque. Não por ser mulher, mas por estar à frente de um centro de ciência que é referência internacional na área de pesquisas em florestas tropicais, o Museu Paraense Emílio Goeldi.
Agrônoma, mestre em Genética pela USP, doutora em Ecologia pela Stirling, da Escócia, Ima tem uma longa carreira na ciência. Depois de 13 anos desenvolvendo pesquisas na área florestal, passou a integrar a equipe administrativa do Museu Paraense Emílio Goeldi, onde trabalha desde 1988. Há seis meses tornou-se diretora da instituição.

Ima conta que nunca se sentiu discriminada por ser mulher e sempre achou muito natural sua inserção no campo acadêmico. “A postura é o que mais importa. Nunca senti esse conflito de gêneros porque, nesse meio, o que está em jogo é a competência”, observa.

A vida pessoal de uma cientista, no entanto, é um pouco diferente. Uma média de doze horas de trabalho por dia e cerca de quatro viagens por mês não é fácil para uma mãe de dois filhos de 8 e 11 anos de idade. Não foi à toa que a pesquisadora trabalhou até os sete meses de gravidez e já desistiu, recentemente, de viajar a pedido dos filhos. Desistir da carreira científica, porém, nunca passou pela sua cabeça e acredita que a tão falada intuição feminina realmente faz a diferença. “A mulher é mais persistente, mais concentrada. O homem é mais disperso. O processo científico é muito longo e o olhar feminino pode levar mais rápido a um resultado”, analisa.

MISSÃO

No olho do furacão. É nesse misto de bem-estar e responsabilidade que podemos situar Núbia Maciel, Pró-Reitora de Pesquisa, Pós-Graduação e Extensão da Unama, setor onde se dá início a todo o processo de produção do conhecimento na academia. “Nessa função me vejo gerindo esse conhecimento. Esse é o meu desafio”, observa Núbia, que viu na missão da universidade em produzir o saber e torná-lo acessível para a sociedade o seu passaporte para a vida científica.

Formada em Administração, especialista em Planejamento e Gestão de Recursos Humanos e professora universitária, Núbia Maciel já tem a educação no DNA. Filha de professora, ela conta que quase nasceu numa sala de aula, no interior de Pernambuco. “E a pesquisa está neste contexto porque ela que alimenta esse processo educacional”.

Apesar de nunca ter sofrido com o preconceito, a pró-reitora acredita que existe sim uma diferença entre os gêneros na ciência, mas quantitativa e não qualitativa. “São diferenças históricas, culturais mesmo, então é natural que o número de mulheres na ciência ainda não seja tão expressivo, embora ela venha se destacando em todas as áreas do conhecimento. O que existe no Brasil é uma assimetria regional, mas não de gênero”, reflete.

 
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